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O iPad já é fabricado no Brasil. Por que o preço não baixou?

A promessa do governo brasileiro era tentadora: um iPad brasileiro 40% mais barato do que um iPad importado.

A declaração, por si só, já era estranha. Um governo anunciando o preço de um produto de uma empresa estrangeira!

O ministro da Ciência e Tecnologia Aloizio Mercadante chegou ao exagero de dizer que estávamos “dando um grande passo para a inclusão digital no país”.

Como se o avanço tecnológico do Brasil só dependesse de aparelhos touchscreen e não de pensadores, educadores, técnicos.

Hoje, ao comprar um iPad 3 por 1.549 reais, o consumidor brasileiro entrega 50% em impostos. Se a redução de 40% de Mercadante fosse colocado em prática, o iPad 3 brasileiro deveria custar 929 reais.

A pergunta – com a resposta óbvia – é: quem está embolsando esta diferença?

iPad made in brasil, preço de importado

Quando se encontrou com a presidente Dilma Rousseff, em abril de 2011, o fanfarrão Terry Gou, presidente da Foxconn, empresa de Taiwan e parceira da Apple, afirmou que a sua empresa iria investir 12 bilhões de dólares no Brasil e gerar 100 mil novos empregos.

Gou é um empresário ao estilo chinês.

Recentemente, ao se sentir acuado diante das acusações de que existia trabalho escravo na Foxconn da China, Gou teria dito: “eles são como 1 milhão de animais, que me causam dores de cabeça”.

Já para com os trabalhadores brasileiros ele foi um pouco mais educado: “ganham muito e trabalham pouco”.

Depois de um ano, vê-se que estes números são bem mais modestos. Hoje, 16 de novembro, trabalham na Foxconn de Jundiaí cerca de 1,3 mil trabalhadores. Produzindo iPhones e iPads.

Mesmo sendo fabricado no Brasil, com incentivos e isenções fiscais, o preço do iPad não baixou um centavo.

Todos querem a Apple

O governo brasileiro mudou então o seu discurso. Agora já declara que o mais importante é a fabricação de componentes “nacionais” obrigatórios (50%) até 2015.

Na visão do ministério da Tecnologia, a Apple seria assim a responsável por um novo padrão de qualidade, no qual as outras empresas se espelhariam.

Governadores de vários estados também embarcaram nesta canoa. Querem uma montadora da Apple nos seus territórios.

Investir na educação, no ensino médio, nas universidades, na formação de novos profissionais da área tecnológica, aí não é com eles.

O gentleman Terry Gou, da Foxconn: “brasileiros ganham muito e trabalham pouco”

Modelo tecnológico sem rumo

O mais estranho nessa estratégia é o governo eleger um tipo de dispositivo (o tablet) e um fabricante (a Apple) como um padrão a ser seguido.

Nesta visão (míope) da realidade a Apple se instalaria no país, reduziria em 40% o preço do seu tablet e o governo faria uma compra de milhares de iPads para serem distribuídos nas escolas públicas brasileiras.

Não precisaria ir muito longe para saber como se faz uma “inclusão digital”. Aqui mesmo no vizinho Uruguai poderia aprender esta lição.

Em 2011 o governo uruguaio fechou a compra de quase 400 mil laptops, ao custo unitário de 260 dólares. Incluíndo aí a manutenção, o treinamento e conexão de internet.

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Paz

J Paz Filho - Sou jornalista, trabalho na produção de conteúdo editorial e na criação, desenvolvimento e manutenção de websites - incluindo e-commerce. Tenho especialização em design gráfico na Unisinos e já fui editor de mais de uma dezena de jornais e revistas especializados. Faça um orçamento enviando uma mensagem no contato; ou por email.