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Organizações Globo tentam reinventar a sua própria história

Faz muito tempo eu não assisto mais ao Jornal Nacional.

Prefiro caçar as notícias através da telinha do meu iPod. Ou então assistir ao Jornal da Record.

Pena que um gênio resolveu adiantar o horário do JR, o que me obriga a voltar a ver os primeiros blocos do JN.

Coloco no canal da Globo, mas nem presto muita atenção. Quase tudo o que está alí já esteve na internet.

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Jornal “O Globo”, após o golpe de 64: “Ressurge a Democracia”

Reescrevendo a história

Só que nesta segunda, dia 2 de setembro de 2013, foi diferente.

Fiquei pregado na minha tv só para conferir a chamada, feita num tom grave, pela apresentadora Patrícia Poeta: “o apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro, reconhecem as organizações Globo”.

Reconheceram. Quase 50 anos depois!

Jornal Nacional do dia 2 de setembro. O editorial lido por Bonner começa em 29:45

Mas foi só olhando o vídeo novamente que eu percebi uma outra coisa. Quer dizer então que o apoio EDITORIAL é que foi um erro?

Será que eu entendi? A Globo se envergonha apenas por ficar marcada pela capa do seu jornal (este mesmo da foto acima) como uma empresa que apoiou um regime militar?

Não fui só eu!

O JN do dia 2 de setembro também faz a divulgação de um site de memória do jornal O Globo, na qual a empresa tenta se libertar do peso de um “equívoco”.

Enquanto aparecia o referido site, Bonner lembrava que a Globo tinha errado sim, mas não errou sozinha:

“O site lembra que os principais órgãos da imprensa brasileira também apoiaram os militares em 64”, narrou Willian Bonner.

Apoiar o golpe foi um erro, informou o editorial do JN, para logo em seguida citar um outro editorial, de 1984, na qual o “dr.” Roberto Marinho manifesta a sua confiança na “revolução” de 1964.

A verdade é que Roberto Marinho não estava incomodado com o regime ditatorial, mas com alguns privilégios que estava perdendo. O principal, a concessão de rádios e tvs para organizações concorrentes.

Mas também é verdade – sim – que quase todos as empresas de comunicação brasileiras conspiravam contra o governo do presidente eleito João Goulart.

Se quiser saber mais sobre as empresas que defendiam a queda do presidente, o site Carta Maior fala sobre a “Rede da Democracia”.

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Jornal Nacional do dia 2 de setembro de 2013: site/memorial do jornal mostra o “erro”

Muito além do Jardim Botânico

A primeira imagem que chegou à minha caixola, quando vi esta edição do JN, foi a minissérie JK — na qual a Globo entra na história como uma empresa simpática às mobilizações sociais da década de 60.

Isso soa tão estranho quanto o esforço da Globo em mostrar que “todo o mundo” apoiava o golpe de 64.

Mas o que a Globo não pode dizer é que não se trata apenas do simples reconhecimento de um “equívoco editorial”.

Ao contrário do que foi lido por William Bonner, a Globo foi muito mais além do que um simples apoio equivocado.

Confira, a seguir:

Minissérie JK: "horrores da ditadura"
Hotsite da minissérie JK: “horrores da ditadura”

“Ajuda” de todos os lados

A empresa foi tremendamente beneficiada pelos militares.

Recebeu apoio econômico, através de financiamentos a perder de vista e juros camaradas. Apoio logístico, quando o governo cedeu a estrutura da estatal Embratel, o que possibilitou a rápida expansão da sua rede de  tv.

A Globo também recebeu a ajuda do grupo norte-americano Time/Life, numa ação proibida por lei, o que acabou provocando um evidente desequilíbrio na concorrência com outros grupos de comunicação, como a Rede Tupi, a maior rival da Globo no final dos anos 60.

“O acordo era totalmente ilegal”, afirmou em 2010 José Bonifácio Sobrinho (o Boni), um dos principais executivos da TV Globo até o final da década de 90.

Como afirma o site Portal da Imprensa, “a sociedade garantiu à Globo um capital de milhões de dólares para compra de equipamentos e construção da emissora; à Time-Life, cabia uma participação nos lucros da empresa. 

Nesta mesma época surgiram acusações de que a Globo estaria se beneficiando da importação de equipamentos eletrônicos. Isenção fiscal, contrabando…?

Nada ficou comprovado, mas não é um fato improvável, em razão do estreito relacionamento entre a Globo e o governo militar.

Se houvesse apenas um equívoco no apoio ao golpe de 64, a Globo não teria prosseguido na defesa ilimitada ao governo militar; que só terminou no momento em que a ditadura entrou em colapso, no meio dos anos 80.

Mesmo assim, a Globo foi uma das últimas empresas de comunicação do país a aderir às eleições livres.

Sai a Excelsior, entra a Globo

É bom lembrar também que a Globo foi construída com as “sobras” da TV Excelsior, emissora da família Simonsen.

Todas as principais características que deram uma cara a tv brasileira vieram da Excelsior: novelas, jornais, grade de programação e — principalmente — a introdução dos espaços comerciais.

A emissora era líder de audiência até 1964, recebeu um aperto financeiro brutal dos militares, foi censurada, faliu, e toda a estrutura da empresa caiu — por milagre — nas mãos da Globo.

Os militares tinham razão: o dr. Roberto Marinho era mesmo a pessoa mais confiável para promover (e esconder) os novos “valores” do país.

Confira um pouco da história da Excelsior neste vídeo:

Diretas??? Onde? Quando?

Um dos episódios mais vergonhosos da história do jornalismo da Globo foi a mentira sobre a maior manifestação popular da história do Brasil, as Diretas Já.

No dia 24 de janeiro de 1984 mais de um milhão de pessoas saíram às ruas de São Paulo para exigir o fim da ditadura, da censura, da corrupção.

Mas para o Jornal Nacional aquilo não passava de uma “festa em comemoração ao aniversário da cidade”.

Ainda hoje, passados quase 30 anos, a Globo não admite que tentou enganar os brasileiros.

O vídeo que mostra o JN daquele dia foi censurado pelas “organizações”, com a justificativa de que viola os direitos autorais.

Para quem deseja conhecer um pouco da história, a Globo “oferece” outros vídeos que, supostamente, mostram o apoio da emissora às Diretas Já.

Em um destes vídeos, o próprio Boni, um dos principais executivos da empresa daquela época,  afirma que o dr. Roberto Marinho “não pode resistir a isso”, referindo-se a uma suposta “pressão da audiência”.

“Nós ficamos limitados a cobrir aquilo como se fosse um show de cantores”, afirma Boni (constrangido e olhando para o chão). Confira o vídeo aqui.

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Vídeo censurado pela Globo: “Diretas Já”, mas para o Jornal Nacional foi apenas uma  “comemoração pelo aniversário da cidade de São Paulo”

O que a Globo não diz

Como pode então uma empresa negar a sua participação no governo militar?

Apoiou o golpe, sustentou a ditadura, encobriu e reprovou todas as manifestações populares e estudantis, foi contra as Diretas Já, e defendeu qualquer tipo de governo, com a única condição de que estes lhes prestassem algum tipo de vantagem econômica.

Ajudou a eleger governadores, destruiu ministros e nunca, pelo menos, se esforçou em denunciar a tortura e a corrupção que se alastrou pelo país entre 1964 e 1984.

Se a Globo quisesse realmente se redimir, poderia informar, por exemplo, que tentou fraudar uma eleição no Rio de Janeiro e um debate entre dois candidatos à presidência da República.

Estamos falando, é claro, das eleições ao governo do Rio, em 1982, vencidas por Leonel Brizola e o debate entre Fernando Collor e Lula, nas eleições presidenciais de 1992.

Talvez fosse pedir muito à Globo que ela expusesse todos os seus podres no seu próprio canal de comunicação.

Talvez tivesse sido melhor  a Globo ter ficado quieta.

Ou não, pois assim ficamos conhecendo, pelo menos, a verdadeira história da Rede Globo.

Se você quiser saber a verdadeira história:

>>> A História Secreta da Rede Globo / Livro de Daniel Herz / Editora Tchê

>>> Muito Além do Cidadão Kane (Beyond Citizen Kane) / Documentário de 1993, mostrado pelo Channel 4, do Reino Unido [1h:33min]

>>> Afundação Roberto Marinho / Livro de Roméro da Costa Machado / Editora Tchê

>>> O Mensalão da Rede Globo / Conversa Afiada, blog do jornalista Paulo Henrique Amorim, citando o blog Cafezinho, do jornalista Miguel do Rosário

>>> Plim-Plim, a peleja de Brizola contra a fraude eleitoral / Livro dos jornalistas Paulo Henrique Amorim e  Maria Helena Passos, sobre a tentativa da Globo em fraudar as eleições do Rio, em 1982, o “escãndalo Proconsult” / Conrad Livros

>>> O dia em que o Jornal Nacional ficou de joelhos / vídeo veiculado pelo Blog do Paz, sobre o direito de resposta, concedido pela Justiça, em favor do então governador do Rio, Leonel Brizola

Mas, se não quiser, pode ler o livro do Bial:

>>> Roberto Marinho / Pedro Bial / Editora Zahar 

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Paz

J Paz Filho - Sou jornalista, trabalho na produção de conteúdo editorial e na criação, desenvolvimento e manutenção de websites - incluindo e-commerce. Tenho especialização em design gráfico na Unisinos e já fui editor de mais de uma dezena de jornais e revistas especializados. Faça um orçamento enviando uma mensagem no contato; ou por email.