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Verdades e mentiras sobre a Deep Web

A reportagem do Fantástico (ontem/11 de outubro) sobre a deep web — a parte não visível da internet — teve o mérito de abrir um assunto que já fazia parte da conversa de muitos brasileiros há pelo menos um ano.

Mas, seguindo uma tradição da mídia brasileira, o Fantástico apenas tocou de leve, mas muito de leve no significado da deep web.

Dizer que a deep web é um território de traficantes e pedófilos – como foi mostrado na reportagem – é tratar um pedaço do assunto como se ele fosse o todo.

Em 2013, Edward Snowden – ex agente da CIA (Central de Inteligência norte-americana) – usou a deep web para divulgar informações secretas do governo norte-americano e agora jornalistas de todo o mundo apontam a ação de Snowden como uma das mais seguras alternativas para a web pública na busca por informações sensíveis ou perigosos.

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Manifesto em favor de Edward Snowden

Tor, onde tudo começa

O pessoal do Fantástico “se esqueceu” de dizer que nesta mesma zona da Internet habitam organizações que não podem se expressar livremente na “internet comercial”, ONGs, centenas de universidades, usuários de países que censuram informações e muito governos democráticos do mundo todo – provavelmente o próprio EUA – a até grandes corporações internacionais.

Esse espaço denominado deep web, agora demonizado por uma parcela da mídia, está localizado dentro de uma rede privada, com acesso restrito apenas aos seus “associados”; não pode ser rastreado por mecanismos de busca, como o Google e ajuda na proteção da privacidade do usuário.

Fique esperto: o anonimato não é garantia de que alguém não seja descoberto, como aconteceu com William Ross Ulbricht, condenado à prisão perpétua, nos Estados Unidos, em 29 de maio de 2015.

O acesso mais conhecido é através do Tor (The Onion Router), um programa livre (um navegador), que pode ser baixado por qualquer um, inclusive você. Não tem nada de ilegal nisso, provavelmente um estudante universitário de qualquer parte do mundo esteja fazendo isso agora.

O Tor foi criado exatamente para preservar a privacidade e a segurança do usuário. O que não é dito é que o governo norte-americano, pós 11 de setembro, “passou a régua”, ou seja, fez uma varredura em toda a rede mundial como justificativa para monitorar possíveis atos terroristas.

A verdade é que muitos serviços secretos de todo o mundo querem ter o acesso irrestrito, não só desta parte da internet, mas também de quaisquer outros dados pessoais de usuários “comuns”.


MITO 1 –  A Deep web é um território de criminosos.

A VERDADE – Atividades ilegais não são apoiadas pela maioria dos usuários da deep web.

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MITO 2 – Jamais alguém poderá ser rastreado usando a deep web.

A VERDADE – Tecnicamente, talvez não, mas é difícil saber quem realmente está entrando em alguma rede. A Justiça dos EUA conseguiu prender William Ross Ulbricht através de um integrante da rede Silk Road, que repassou informações sobre ele à Polícia.

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MITO 3 – Quem entra na deep web está praticando uma atividade ilegal e pode ser preso.

A VERDADE – Bobagem, governos democráticos, grandes empresas, ONGs, universidades, ativistas, também usam a deep web.

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MITO 4 – Posso comprar qualquer coisa, é só ter um cartão de crédito internacional.

A VERDADE – A moeda adotada pela deep web é o bitcoin, um sistema de pagamento com dinheiro “virtual”.

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Armas e drogas

Em uma outra camada, existem sites vendendo armas e drogas, no espaço denominado Silk Road.

No dia 29 de maio de 2015, William Ross Ulbricht, acusado de comandar uma rede de vendas de drogas na Silk Road foi condenado à prisão perpétua.

A ironia é que as drogas comercializadas alí tem a fama de “terem boa procedência”, não serem batizadas, serem puras, sem misturas.

Também não dá para ser ingênuo, existe sim uma atividade absolutamente inaceitável que envolve pornografia infantil e supostas mortes por encomenda. Mas isso não faz parte da deep web “do bem” e é condenada e combatida pela grande maioria dos usuários – que proíbem este tipo de atividade.

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A visão do Fantástico : jovens comuns, inocentes, se escondendo no “submundo” da internet e fazendo coisas ilegais…

O compartilhamento de material protegido por direitos autorais é outra atividade rejeitada por aqueles que dedicam muito esforço na publicação de conteúdo.

Muita coisa também entra na tentativa de desmoralizar a deep web através da divulgação de “lendas urbanas”, como sequestros e espancamento de pessoas, que estariam envolvidas em atividade ilegais.

Eu não vou fazer propaganda de nada, cada um pense como quiser. Mas, ao invés de detonar a deep web, a grande mídia brasileira poderia ir adiante e discutir seriamente a invasão de privacidade  patrocinada pelos EUA e a venda de armas e de drogas.

O Estado deveria usar a sua força para reprimir estas atividades, ou talvez fosse mais produtivo apenas tentar controlá-las – e assim evitando o gasto de bilhões de dólares e a morte de centenas de milhares de pessoas? No México já foram 70 mil mortes. Nos EUA, 43 milhões de pessoas estão presas por tráfico e comercialização de drogas.

Acha que a grande mídia vai discutir isso?

Quer saber mais verdades sobre a Deep Web? Então tem que assistir “Deep Web”

O Documentário mostra um dos crimes digitais mais importantes e fascinantes do século — a prisão de William Ross Ulbricht, empresário de 30 anos, acusado de ser o “Dread Pirate Roberts”, criador e operador do mercado negro de drogas on-line Silk Road. O filme explora a forma como as mentes mais brilhantes e lideranças do pensamento por trás da Deep Web são apanhados durante a batalha pelo controle de um futuro ligada à tecnologia, com os nossos direitos digitais colocados na balança.

Uma abordagem séria sobre o assunto, fruto de muita pesquisa e abordando todos os principais aspectos da deep web.

Você só comenta nas grande mídias?

O Estado deveria usar a sua força para reprimir estas atividades, ou talvez fosse mais produtivo apenas tentar controlá-las — e assim evitando o gasto de bilhões de dólares e a morte de centenas de milhares de pessoas?

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Paz

J Paz Filho - Sou jornalista, trabalho na produção de conteúdo editorial e na criação, desenvolvimento e manutenção de websites - incluindo e-commerce. Tenho especialização em design gráfico na Unisinos e já fui editor de mais de uma dezena de jornais e revistas especializados. Faça um orçamento enviando uma mensagem no contato; ou por email.