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Voo 3054 da TAM: tragédia sem culpados

Eu pensei mais de uma vez antes de redigir este post. Em respeito às famílias das 199 vítimas do voo 3054 da TAM que se espatifou no prédio da mesma empresa em São Paulo, em 2007.

Mas não posso me omitir diante de uma injustiça: o pedido de condenação, ontem (7 de abril de 2014), pelo Ministério Público Federal, de Marco Aurélio dos Santos de Miranda e Castro, ex-diretor de segurança de voo da TAM, e de Denise Maria Ayres Abreu, ex-diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac).

Me lembro muito bem da cobertura preguiçosa da mídia brasileira logo após à tragédia, apontando o dedo para a Anac e para a Infraero. Sem analisar, por exemplo, as responsabilidades da poderosa Airbus, fabricante da aeronave.

Foto: TIAGO QUEIROZ/AGÊNCIA ESTADO/AE

O que aconteceu é que os coleguinhas embarcaram — não sei se involuntariamente — na onda anti-estatal que acabaria na privatização dos principais aeroportos brasileiros.

Para quem não se lembra, logo após ao desastre, a mídia só conseguia apontar um único culpado: o asfalto do aeroporto de Congonhas e a falta de ranhuras (ou grooving).

Poucos jornalistas se deram ao trabalho de investigar as condições do piso em outros lugares do mundo. Se tivessem feito isso, saberiam que aviões do mesmo tamanho do Airbus da TAM pousam em pistas menores e em condições muito, mas muito piores do que na pista de Congonhas naquele dia.

Mas não, seria mais conveniente condenar a Anac e a Infraero – e livrar a Airbus.

CENIPA, o começo das investigações

A investigação feita pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA) apontou vários fatores que, juntos, teriam contribuído para a tragédia. A principal, uma falha no sistema de automação da aeronave.

Mas, surpreendentemente, o resultado oficial, de responsabilidade da Polícia Civil do Estado de São Paulo, e finalizado no final de 2008, foi na direção contrária às conclusões do CENIPA.

Para a Polícia de São Paulo os culpados foram cinco funcionários da Anac, três da Infraero e dois da TAM.

E nada se falaria sobre a Airbus…

Estranhamente, entre os indiciados neste inquérito figuram dois funcionários da Infraero encarregados de medir a altura da lâmina d’água na pista do Aeroporto de Congonhas no dia do desastre.

Enviado à Polícia Federal o inquérito tomou um novo rumo. A PF concluiu, em 2009, que os culpados não eram nem a Infraero, nem a Anac ou a TAM, mas os comandantes Kleiber Lima e Henrique Stefanini di Sacco.

O que a PF deixou de explicar é como uma empresa como a Airbus permitia que uma aeronave voasse apenas com um reverso, expondo a aterrissagem a um desastre iminente. Lembrando que quatro outros incidentes semelhantes, com o mesmo modelo (o A320), já haviam acontecido em anos anteriores a 2007.

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Modelo Airbus A-320: falhas

Ora, não precisa ser um especialista para se chegar a conclusão de que este era um problema do avião. Mais grave ainda é saber que os Airbus são aeronaves com um conceito de automação quase total e, assim, o seu sistema jamais deveria permitir a aceleração de uma turbina – simultaneamente à desaceleração de outra, justo no momento mais crítico de um voo.

Percebe-se, claramente, que a Airbus, ao permitir a inutilização de um dos reversos, confiava plenamente nos recursos dos sistemas computadorizados dos seus aviões.

Além disso, outras prováveis falhas mecânicas, apontadas por vários outros pilotos, não foram devidamente analisadas pela PF.

Palavra final: o Ministério Público

Agora, o Ministério Público Federal, de posse de todas essas informações, pediu a condenação da ex-diretora da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) Denise Abreu e do então diretor de Segurança de Voo da TAM Marco Aurélio dos Santos de Miranda, por “assumiram os riscos de expor ao perigo os aviões que operavam no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo”.

Estranho. O MPF indicou responsabilidades sobre pessoas que teriam permitido a aterrissagem de aeronaves em uma pista sem condições de uso, mas o mesmo MPF permitiu o uso do aeroporto de Congonhas já no dia seguinte à tragédia.

No caso particular da mídia talvez as privatizações expliquem alguma coisa. Já o Ministério Público, acredito, está cometendo uma grande injustiça.

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Paz

J Paz Filho - Sou jornalista, trabalho na produção de conteúdo editorial e na criação, desenvolvimento e manutenção de websites - incluindo e-commerce. Tenho especialização em design gráfico na Unisinos e já fui editor de mais de uma dezena de jornais e revistas especializados. Faça um orçamento enviando uma mensagem no contato; ou por email.