A homologação do título de campeão mundial interclubes de 1951 concedida ao Palmeiras não é oficial.

A FIFA apenas analisou e validou a Copa Rio de 51, em resposta a uma requisição do ministro do Esporte, Aldo Rebelo, torcedor do Palmeiras. Um reconhecimento ao governo brasileiro por ter patrocinado a Copa do Mundo.

De acordo com a nota do Ministério do Esporte, em novembro de 2014, a FIFA teria enviado uma cópia de uma ata de uma reunião do Comitê Executivo da entidade:

“Depois do grande sucesso da Copa do Mundo Fifa no Brasil em 1950, a CBD[*] decidiu promover outro campeonato em parceria com a Fifa visando elevar a qualidade técnica do esporte. Isso foi alcançado na Copa Rio 1951”.

[*] CBD — Confederação Brasileira de Desportos, que em 1981 virou Confederação Brasileira de Futebol – CBF

Mas tudo termina por aí. Nenhum documento oficial foi enviado à CBF ou ao Palmeiras.

Josef Blatter, Marco Polo Del Nero, José Maria Marin e Jérôme Valcke: os donos do futebol em 2014

Josef Blatter, Marco Polo Del Nero, José Maria Marin e Jérôme Valcke: os donos do futebol em 2014

A mídia esportiva brasileira, percebendo que esta notícia poderia render grandes manchetes, anuncia, então, o Palmeiras como campeão mundial interclubes.

Mas, por enquanto, havia apenas uma nota do Ministério do Esporte. Tanto isso é verdade, que, em 2015, o jornal O Estado de São Paulo envia um novo pedido à FIFA, questionando a validade do título do Palmeiras.

Em resposta, a FIFA teria remetido um documento, não oficial, através  de um “porta-voz” da entidade:

“Em reunião realizada em São Paulo no dia 7 de junho de 2014, o Comitê Executivo concordou com o pedido apresentado pela CBF para reconhecer o torneio disputado em 1951 entre clubes europeus e sul-americanos como a primeira competição interclubes e o Palmeiras como o seu vencedor”.

O Estado então publica uma matéria revelando que a FIFA tinha validado o torneio do Rio como sendo o primeiro Mundial Interclubes.

Parece não ter sido o que reamente aconteceu. O texto, não oficial, apenas reconhece um torneio. Relembrando que nessa época  também eram realizados vários  outros torneios interclubes entre nações. 

Mas em 1951 a posição do Estado de São Paulo era outra. Colocava em xeque a denominação “campeonato mundial”:

“Talvez haja êxito econômico, apesar dos pesares. Mas, com ele ou sem ele, é aconselhável, além de honesto, que se mude a denominação do certame, mesmo porque, pelo simples exame da relação dos concorrentes, verifica-se que ele não é dos Campeões e muito menos Mundial…”

A justificativa do jornal era simples: Palmeiras e Vasco representavam apenas dois Estados e os demais clubes não tinham como representantes os seus clubes campeões.

Para reforçar este sentimento entre torcedores e jornalistas da época, o Estadão noticiou o campeonato seguinte, o de 1952, apenas como “Taça Rio”.

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O Estado de São Paulo: Fluminense campeão da Taça Rio de 1952

Em 2007, a Fifa, sob o comando de Joseph Blatter, chegou a homologar a Taça Rio de 1951 como o primeiro Campeonato Mundial. 

Depois voltou atrás e tentou contar como oficiais apenas títulos internacionais organizados a partir de 2000.

Cartolas, clubes e governos

A homologação de títulos no futebol, após a sua realização, tem exposto a relação promíscua entre os dirigentes de entidades (FIFA, confederações e federações regionais), clubes e governantes de todos os níveis.

No Brasil, como exemplo, o pedido de reconhecimento do título nacional do Flamengo em 1987 foi definitivamente negado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em agosto de 2016, que declarou o Sport como único vencedor do campeonato brasileiro daquele ano.

O estranho é que a própria CBF já havia rejeitado o pleito do Flamengo. Mas em 2011 voltou atrás, numa decisão do seu ex-presidente Ricardo Teixeira. O objetivo: beneficiar politicamente a então presidente do seu clube de coração, Patrícia Amorim. 

Patrícia Amorim com Ricardo Teixeira: ação entre amigos e distribuição de títulos

Patrícia Amorim com Ricardo Teixeira: ação entre amigos e distribuição de títulos

O argumento oficial, na palavra do então diretor jurídico da entidade, Carlos Eugênio Lopes, é uma pérola da enrolação dos dirigentes brasileiros:

“O Flamengo apresentou no início de fevereiro um estudo complexo pedindo que a CBF reconsiderasse a decisão de 1987 e reconhecesse o Flamengo como campeão junto com o Sport. O presidente Ricardo Teixeira repassou para mim o estudo e, diante dos novos argumentos, vimos que seria justo e isso não causaria problemas jurídicos a ninguém”.

Estudo complexo?? Problemas jurídicos?? O Brasil talvez seja o único país do mundo onde existiram dois campeões nacionais. Num mesmo ano!

Em 2010, em outro canetaço, a CBF já tinha reconhecido como campeões os clubes vencedores do Torneio Roberto Gomes Pedrosa (Robertão).

E por aí vai…

Pois bem, e agora voltando a Copa Rio, como bem observa o colega Márvio dos Anjos (globoesporte.com); na mesma época em que aconteciam os torneio de 51/52 no Brasil ocorriam outras competições semelhantes pela América do Sul, com a denominação de torneios mundiais e com a presença de clubes europeus campeões, convidados.

E nem por isso algum clube da Colômbia, por exemplo, foi declarado campeão mundial de clubes.

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Estadão de 24 de julho de 1951: “Nem todos os competidores eram campeões”

Entenda como funciona o mundial de clubes

A verdade é que a FIFA sempre se esforçou em “esvaziar” o mundial de clubes.

É uma disputa política. A FIFA é uma entidade privada, com interesses econômicos, cujo principal retorno financeiro sempre foi a disputa entre seleções, a Copa do Mundo.

A primeira briga aconteceu entre a FIFA e a UEFA (Union of European Football Associations) e durou até 1961, quando finalmente a FIFA decidiu criar uma competição internacional de clubes, inicialmente chamada de Campeonato Mundial de Clubes.

A primeira Copa Intercontinental só aconteceu mesmo em 1962, no jogo Santos x Benfica, com duas vitórias do time brasileiro por 3×2 no Maracanã e 5×2 em Lisboa.

Gol de Pelé em 1962, no Maracanã, contra o Benfica

Gol de Pelé em 1962, no Maracanã, contra o Benfica – o “primeiro Mundial”

Mas a briga entre várias confederações continentais, entre elas a Conmebol (América Central), foi esvaziando o campeonato. Os clubes europeus também não levavam o mundial muito a sério.

Na década de 1970 o campeão europeu participou de apenas três edições. Em 1978/79 nem houve final.

O Mundial Interclubes retomou a sua tradição e importância somente na década de 1980 — quando a violência de alguns times argentinos foi diminuindo e os clubes brasileiros ganhando vários campeonatos.

Carimbo da FIFA

O primeiro mundial com o “carimbo” da FIFA só aconteceu mesmo a partir de 2000.

Mesmo tendo acontecido no Brasil, o torneio de 2000 não alcançou muito interesse.

Os torcedores, especialmente os sul americanos, já estavam acostumados a uma decisão final única, entre um clube da América do Sul contra outro da Europa.

Foi tão ruim que só voltou em 2005, no Japão, com mais força – sendo jogado depois, também, nos Emirados Árabes e agora no Marrocos.

 

Clubes brasileiros campeões mundiais

 

clube-santos Santos fifa-taca-campeao-mundial-clubes fifa-taca-campeao-mundial-clubes  
     1962  1963  
clube-flamengo2 Flamengo fifa-taca-campeao-mundial-clubes    
    1981    
clube-gremio Grêmio  fifa-taca-campeao-mundial-clubes    
    1983    
clube-sao-paulo São Paulo fifa-taca-campeao-mundial-clubes  fifa-taca-campeao-mundial-clubes  fifa-taca-campeao-mundial-clubes
    1992 1993 2005
clube-inter Internacional  fifa-taca-campeao-mundial-clubes    
    2006    
clube-corinthians2 Corinthians  fifa-taca-campeao-mundial-clubes    
    2012    

 

Saiba mais sobre este assunto:

Entidades que comandam o futebol são públicas?

O ‘dono do futebol brasileiro’ abriu a chave do esquema corrupto na FIFA

10 mitos e verdades sobre o Mundial de Clubes de 2000

 

Mundial ganho pelo Palmeiras. Narração | Marcelo Adnet / Rede Globo

J Paz Filho

J Paz Filho

Jornalista (PUC) /// Designer (Unisinos) /// Geek /// Produtor de conteúdo editorial ///Websites e e-commerce /// Editor de jornais e revistas
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